No estado do Tocantins, planta típica muda
vida da população
JULIANA BORGES e MAURÍCIO MONTEIRO FILHO
O menino Flávio Ribeiro, morador da comunidade do Prata,
ignora que carrega nas mãos as raízes de um futuro incerto
para as populações da região do Jalapão, estado do
Tocantins.
Os habitantes do vilarejo em que vive o garoto, no
município de São Félix do Tocantins, têm assistido, nos
últimos três anos, a uma verdadeira revolução, que já atinge
as principais cidades do Jalapão.
Numa das áreas mais ermas do Brasil, um deserto
populacional de densidade demográfica menor que a da
Amazônia – abaixo de 0,6 habitante por quilômetro quadrado
–, os moradores de Ponte Alta do Tocantins, Mateiros, São
Félix e Novo Acordo, maiores municípios do Jalapão, estão
trocando as práticas tradicionais da lavoura e da pecuária
por uma nova atividade econômica: o artesanato do
capim-dourado, uma espécie típica da região, que chama a
atenção por sua cor de ouro.
Deserto de águas
Situado na porção leste do Tocantins, mas alcançando
também os estados do Maranhão, Piauí e Bahia, o Jalapão é
uma terra de extremos. Entretanto, ao contrário do que
acontece no restante do país, os paradoxos da região são
predominantemente de natureza ambiental. Em termos sociais,
a miséria e a escassez de recursos são iguais para os
habitantes daquela área. E são justamente os contrastes
ecológicos as maiores riquezas do lugar. Em oposição ao
cerrado ralo que recobre o solo arenoso do Jalapão, as
nascentes, rios e cachoeiras são abundantes em toda parte. O
resultado é uma imensidão semi-árida recortada por águas
límpidas.
Pela exuberância do ecossistema, a região despertou o
interesse dos visitantes e, a partir de 1998, passou a ser
alvo de agências especializadas em ecoturismo. Assim, na
estação seca – o verão, que corresponde, no Jalapão, aos
meses de junho e julho –, são numerosos os grupos de
turistas de todo o Brasil que enfrentam areia e lama para
chegar às principais atrações do lugar: as cachoeiras da
Formiga e da Velha, o Fervedouro – pequena nascente de águas
cristalinas com fundo de areia – e as dunas.
Devido à crescente ação humana, o Jalapão tem sido
submetido a uma intensificação do processo natural de
erosão. Por causa da fragilidade da vegetação e das
características do solo, essa interferência potencializa a
desertificação da área. Por isso tornou-se necessária a
criação do Parque Estadual do Jalapão, em janeiro de 2001.
"A intenção foi conter a exploração desenfreada do turismo",
declara Alexandre Rodrigues, diretor de desenvolvimento
sustentável do Instituto Natureza do Tocantins (Naturatins),
órgão responsável pela gestão do parque.
A diversidade ecológica da região e os impactos que ela
vem sofrendo também levaram o Instituto Brasileiro do Meio
Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), em
conjunto com a Conservation International e pesquisadores da
Universidade de Brasília, a montar uma expedição ao Jalapão,
em maio de 2001. "O objetivo foi estabelecer unidades de
conservação (UCs) fora do parque", justifica Miguel von Behr,
coordenador do grupo. Ao fim de um mês, a viagem resultou na
criação de um corredor ecológico que integra quatro UCs –
Áreas de Proteção Ambiental Serra da Tabatinga e do Jalapão,
Estação Ecológica Serra Geral do Tocantins, na fronteira
entre Bahia e Tocantins, e Parque Nacional Nascentes do
Parnaíba, situado na divisa de Piauí, Maranhão, Tocantins e
Bahia –, além do parque estadual. Segundo Von Behr, atual
gerente do corredor ecológico, a iniciativa se deve ao fato
de o Jalapão ser considerado uma das áreas prioritárias de
conservação do cerrado.
Do relatório da expedição, publicado em fevereiro de
2002, constam, além de estudos técnicos sobre fauna e flora,
avaliações sobre a situação das comunidades tradicionais
daquela região. A partir do levantamento humano feito pela
equipe do Ibama, foram realizadas oficinas de planejamento
com os moradores dos municípios de Ponte Alta, Mateiros e
São Félix, com o intuito de identificar suas principais
reivindicações. Em todos os encontros, foi unânime a
preocupação com o capim-dourado.
Progresso dourado
Por meio do artesanato da planta, o mundo chegou às
populações nativas do Jalapão. E o fez num turbilhão
iniciado há apenas quatro anos. Nesses povoados centenários,
cujo número de habitantes não chega a exceder o de seus anos
de existência, todas as necessidades da comunidade eram
supridas por ela própria, de panelas de barro a chapéus para
proteger do sol escaldante que castiga os roçados nos meses
de seca, quando a temperatura ultrapassa facilmente os 40
graus.
Nas palavras de Guiomar Ribeiro da Silva, moradora do
povoado de Mumbuca, localizado em Mateiros, a nova fonte de
sustento de sua comunidade também teve origem naquelas
terras. "O capim-dourado foi nascido e criado aqui",
orgulha-se. Ela, como a grande maioria das mulheres e alguns
dos homens do vilarejo, está trocando a lavoura e as antigas
práticas artesanais pelo trabalho com o capim-dourado. Na
verdade, no caso de Mumbuca, não se pode dizer se a
comunidade criou o capim ou foi o inverso. Certo é que a
história de ambos é indissociável.
"Minha mãe aprendeu o artesanato com os índios", conta
Guilhermina Ribeiro da Silva, a dona Miúda, de 73 anos,
moradora de Mumbuca desde que nasceu e, hoje, a maior
liderança da comunidade. Aos 14 anos, começou a praticar a
técnica. Naquela época, porém, o artesanato era destinado
apenas ao uso doméstico. Das fibras do capim, costuradas com
as do buriti, outra espécie típica da região, surgiam os
chapéus que protegeriam os lavradores na roça. Além disso,
ele era matéria-prima para fabricar cestas, bolsas e
utensílios de cozinha. A arte de trançar suas fibras estava
circunscrita a dona Miúda e outras poucas artesãs, que
trabalhavam também com a macaúba, a piaçava e o próprio
buriti.
A matriarca da comunidade foi a única mulher que buscou
outro destino para parte de sua produção. "Eu vi que o capim
ia dar progresso", afirma. Com a ajuda dos filhos, viajava
até as cidades próximas, e a outras nem tanto – a própria
Mateiros fica a cerca de 28 quilômetros de Mumbuca –, para
comercializar as peças produzidas por ela. "Ia com o burro
de carga, um saco de cada lado, vender o artesanato em
Dianópolis (TO), Lizarda (TO), Corrente (PI) e Formosa do
Rio Preto (BA)."
Tradição à venda
A partir de 2000, os burros de carga deram lugar a
veículos com tração nas quatro rodas, e os destinos do
artesanato não mais se limitaram às cidades vizinhas,
expandindo-se para os grandes centros urbanos, como
Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo. O governo do estado do
Tocantins, através da Secretaria de Cultura, passou a
incentivar a produção. Após uma consulta à comunidade de
Mumbuca, foi realizada uma oficina de cinco dias para tornar
as peças "compatíveis" com o mercado. "Eles já possuíam a
tradição, mas não sabiam produzir com vistas à
comercialização. Faziam o artesanato para usar, não para
vender", explica Rosane Rodrigues, coordenadora de
artesanato e arte indígena da Fundação Cultural, órgão
vinculado à Secretaria de Cultura do Tocantins. Segundo ela,
após alguma resistência inicial, os moradores de Mumbuca
adotaram os formatos ensinados pelo designer paulista
Renato Imbroisi, levado ao Jalapão pela Fundação Cultural
exclusivamente para aprimorar a técnica que dona Miúda
difundira na comunidade. "Hoje, são confeccionados por volta
de 50 produtos diferentes", conta Maria da Penha de Faria,
consultora de projetos em artesanato do Serviço Brasileiro
de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).
O incentivo do governo fez com que o artesanato
ultrapassasse as fronteiras de Mumbuca. A arte dominada por
dona Miúda e sua comunidade chegou a Ponte Alta e São Félix.
Foi transmitida também aos moradores da cidade de Mateiros e
aos povoados de Carrapato, Borá e Boa Esperança, todos no
mesmo município. Às margens das estradas da região, a grande
maioria das casas sustenta placas de "Vende-se artesanato de
capim-dourado".
Na comunidade do Prata, onde mora o garoto Flávio, o ouro
das fibras da planta começou a ser explorado quatro anos
atrás. A primeira artesã foi Gracy Ribeiro, moradora do
povoado há mais de 40 anos. "Antes trabalhava na roça.
Agora, só no capim", relata. Ela é a responsável pela casa
do artesão de sua comunidade, construída com apoio da
prefeitura de São Félix para expor a produção local. Assim
como os outros povoados, o Prata recebe, quinzenal ou
mensalmente, a visita do carro da Fundação Cultural, que
recolhe as peças para revender. "A intenção do governo é
fazer com que a febre do capim-dourado não passe", explica
Sônia Miranda, gerente do centro de artesanato e arte
indígena da instituição e uma das responsáveis pela visita
às comunidades. Essa iniciativa, no entanto, não conta com o
apoio dos artesãos, que se sentem explorados, uma vez que
nos grandes centros o preço das peças chega a quadruplicar.
E o retorno?
Tanto o Sebrae como a Fundação Cultural prestam
praticamente o mesmo serviço às comunidades. Cedem carros
para levar os moradores até os locais de coleta e
transportar o material colhido, exercem uma espécie de
controle de qualidade do artesanato para melhorar o
acabamento das peças e cadastram todos os artesãos. A
Fundação Cultural criou diplomas de "mestre-de-obras" para
as pessoas que passaram pelas oficinas e estão aptas a
trabalhar com o capim. Também foi fundada a Associação dos
Artesãos e Extrativistas do Povoado de Mumbuca, da qual
participam, além dos moradores locais, os de Borá e de Boa
Esperança.
Mas a maior importância da presença dos dois órgãos nos
povoados produtores é sentida no destino final das
mercadorias. Ambos são os responsáveis pela "exportação" do
artesanato a outros estados, através de feiras e exposições.
Em Palmas, capital do Tocantins, a Fundação Cultural mantém
uma loja especializada em artesanato tocantinense, que vende
os artigos confeccionados no Jalapão.
Os dois órgãos garantem que todo o montante arrecadado
nas vendas é repassado para os artesãos, isto é, só quem
lucra são os produtores. Porém, o artesanato do
capim-dourado, em função do aumento do turismo, tem sido
objeto de intensa especulação e acaba chegando
supervalorizado às grandes cidades. A procura cada vez maior
pela arte reluzente do capim-dourado tem gerado um universo
de intermediários e atravessadores, contra os quais os
habitantes locais não têm defesa. "O dinheiro do turista
chama a atenção e é uma necessidade. Mesmo assim, os
artesãos já sabem que vender de qualquer jeito é prejudicial
a eles", explica Maria da Penha. Na realidade, o turismo
crescente desempenha um papel fundamental na consolidação da
prática do artesanato como fonte de renda para as
comunidades. "Algumas pessoas passaram a ir ao Jalapão
exclusivamente para adquirir o artesanato", complementa
Rosane, da Fundação Cultural. O problema são os compradores
de atacado, geralmente lojistas de outras regiões do Brasil,
que terão lucros exorbitantes à custa da produção dos
artesãos jalapoeiros. "Vamos cobrar das empresas a
repartição dos benefícios gerados pelo artesanato do
capim-dourado. Uma proposta é a elaboração de contratos de
compra e venda", afirma Suelma Ribeiro, bióloga do Ibama.
É essa também a opinião de dona Miúda. Junto com os
termos que passaram a ser comuns no vocabulário das
comunidades do Jalapão, como concorrência, lucro e
exploração, ela viu chegar a Mumbuca a imprensa, com a saga
do capim-dourado reduzida a matérias em revistas de moda e
design e fotos de atrizes famosas com bolsas feitas
da planta. Ela, melhor do que ninguém, sabe que o dinheiro
envolvido no comércio desse artesanato é muito superior aos
R$ 200 ou R$ 300, frutos da venda das peças, que
complementam a renda mensal quase inexistente das famílias
nativas do Jalapão.
Futuro incerto
Desde a época em que a mãe de dona Miúda aprendeu o
artesanato com os índios, o conhecimento sobre o
capim-dourado é o mesmo, isto é, quase nenhum. Somente
agora, depois de a planta adquirir importância econômica,
tiveram início os primeiros trabalhos científicos sobre o
assunto. Entre 2001 e 2002, o Ibama fez um levantamento das
áreas de ocorrência do capim e do modo como ele é explorado.
Agora, pelos próximos dois anos, em uma parceria com
pesquisadores da Universidade de Brasília, o órgão vai
conduzir um estudo mais específico sobre o ciclo biológico e
o manejo da espécie.
Por enquanto, o que se sabe sobre a planta é que ela
cresce em pouquíssimos lugares do país – além do Jalapão, é
encontrada apenas no sudeste do Tocantins, próximo à cidade
de Rio da Conceição, e no estado de Goiás, no município de
São Domingos – e sempre em áreas alagadiças, as veredas. A
colheita é feita somente uma vez por ano, entre agosto e
outubro, e as sementes não são aproveitadas. Uma vez que a
planta é coletada inteira para depois serem extraídos os
fios, as tentativas de cultivá-la não alcançaram êxito. Como
todo o capim é retirado de reservas já existentes, a falta
de conhecimento sobre a espécie é uma grave ameaça ao futuro
da planta e do artesanato.
Com o aumento da atividade no Jalapão, em poucos anos a
demanda pelo capim-dourado cresceu absurdamente. "No início
só havia oito artesãs, todas de Mumbuca. Hoje, são mais de
200", explica Rosane. "Nesse ritmo, não sabemos por quanto
tempo o capim resistirá", alerta Alexandre Rodrigues, do
Naturatins. Por esse motivo, o Sebrae está buscando
alternativas para que as comunidades não dependam
exclusivamente do capim como fonte de renda. "Estamos
incentivando o uso de outras espécies no artesanato", conta
Maria da Penha, do Sebrae. Sobre isso, Suelma Ribeiro é
taxativa. "As comunidades não podem viver só do capim",
afirma.
Para agravar o problema, a meta da Fundação Cultural para
o ano de 2003 é baixar os preços do artesanato. "Para não
afastar o comprador, nossa intenção é reduzir o valor das
mercadorias", explica Sônia Miranda. Essa atitude, em vez de
beneficiar os artesãos, pode ser profundamente danosa. Com o
aumento da procura pelo capim-dourado, a queda dos preços
pode significar um aumento insustentável nas vendas, a ponto
de ameaçar a sobrevivência da espécie.
Entretanto, ofuscados pelo brilho do artesanato, parece
impensável aos moradores do Jalapão procurar o sustento em
outra atividade econômica. Afinal, numa região onde o
dinheiro mal circulava, o capim-dourado se tornou
praticamente a única alternativa de renda. Porém, segundo a
legislação que dispõe sobre UCs, esse tipo de exploração é
proibido em áreas de parque. "É claro que o crescimento do
extrativismo do capim-dourado é um dos motivos para a
criação da unidade", afirma Alexandre Rodrigues. "Nosso
interesse é que a exploração seja adequada, para que
possamos garantir a manutenção desse recurso no futuro",
complementa.
Para as cerca de cem famílias que moram dentro dos 159
mil hectares do Parque Estadual do Jalapão, exploração
adequada é sinônimo de restrição ao uso do capim-dourado e,
por conseqüência, diminuição do lucro. "A gente brigou muito
para ficar fora do parque, mas não conseguiu", relata
Maurício Ribeiro, morador de Mumbuca, criticando a atuação
do Naturatins. Além desse povoado, Borá, Boa Esperança e
Carrapato também se encontram na mesma situação.
Porém, essa não é a pior ameaça a que estão submetidas as
comunidades instaladas em Mateiros. Elas correm o risco de
ser removidas de suas terras, uma vez que não é permitido
haver pessoas morando em área de parque.
Segundo Isac Braz, presidente do Naturatins, o destino
definitivo dessas populações só será conhecido ao fim da
elaboração do plano de manejo do parque, o que deve
acontecer ainda neste ano. De qualquer forma, ele antecipa a
intenção do instituto de "conciliar o ambiental com o
social". "O artesanato era uma atividade tímida, mas cresceu
rapidamente e agora já exige que seja repensado o formato da
UC. Hoje, seria um crime privar aquelas pessoas dessa fonte
de renda", declara Braz.
Um ano após a criação do Parque Estadual do Jalapão, nada
de concreto indica sua existência. Os limites da unidade são
controversos até mesmo para o próprio Naturatins. Assim,
enquanto não estiver concluído o plano de manejo,
permanecerá o medo dos artesãos e de suas comunidades, cada
vez mais dependentes do capim-dourado.
Os olhos experientes de dona Miúda são dos poucos que
conseguem enxergar através do brilho do artesanato que
conheceu há mais de meio século. Evocando as lembranças do
tempo em que acompanhou o marido na busca por diamantes no
Piauí, ela vê, na febre que mobiliza todo o Jalapão, sua
história se repetir. "O capim-dourado é o garimpo que a
gente faz aqui", diz.