Parque do Jalapão

Considerado uma das três áreas prioritárias para conservação do cerrado, o local está ameaçado pela prática do turismo predatório


O turismo desordenado agrava a erosão eólica natural das serras

O Jalapão (TO) é considerado uma das três áreas prioritárias para a conservação do cerrado brasileiro. Os turistas, aos poucos, estão descobrindo o local, rico em gigantescas dunas formadas a partir do efeito das chuvas e fortes ventos sobre montanhas de arenito.

A região tem esse nome originado de uma planta medicinal, a Jalapa, usada como diurético pela população local.


O objetivo é estudar formas de melhorar a qualidade de vida na região


Uma expedição formada por 30 pesquisadores do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), da Universidade de Brasília (UnB), da Conservation International e da Organização Pesquisa e Conservação do Cerrado-Pequi estão estudando o local, incumbidos ainda de propor projetos ambientais para a região.

O coordenador da expedição, Miguel von Behr, pesquisador do Departamento de Conservação de Ecossistemas do Ibama, afirma que o objetivo é estudar formas de melhorar a qualidade de vida da região que é muito pobre, mas sem degradar o ambiente

A maior preocupação dos pesquisadores é em relação ao turismo que começa a se desenvolver na região. "O potencial turístico é a solução, mas pode ser a desgraça do Jalapão", acredita Miguel Von Behr, também coordenador da parte biológica do projeto.

Segundo o biólogo, o turismo que está sendo praticado na região é predatório. "O principal problema é o acesso aos locais. Os turistas querem chegar de carro até praticamente debaixo das cachoeiras! Por conta disso, verificamos a presença de pequenas voçorocas próximas a atrativos turísticos".

Um dos locais que já apresentam alterações é o Fervedouro, um grande lago em Mateiros, de 20 m², nascente de um rio, onde a força da água que vem de baixo impede a pessoa de afundar.

Com o término do levantamento de campo dos pesquisadores de fauna e flora, a expedição deve ter continuidade com a chegada de equipes de antropólogos que farão a parte social do trabalho.


Espeleólogos devem iniciar levantamento das cavernas do Jalapão


Ao mesmo tempo, na região de Ponte Alta, espeleólogos devem estar iniciando o levantamento das cavernas do Jalapão.

Os resultados do trabalho serão reunidos em um relatório e um documentário de vídeo, que deverão subsidiar as discussões para a criação de um corredor ecológico na região.

Além de uma nova espécie vegetal, da família Volkseacea, e dois pequenos mamíferos ainda não identificados, os cerca de 20 pesquisadores constataram a presença de espécies da Caatinga e da Amazônia, que mostram que o Jalapão está na área de influência desses dois ecossistemas.

Os pesquisadores comprovaram, todavia, a existência de grandes extensões de Cerrado ainda praticamente intocadas. Em um trecho de 120 quilômetros entre os municípios de Hilda Conceição e Mateiros não foi localizado nenhum morador, apenas veredas, cerrado e campo limpo, com muitas áreas de nascentes.


Grandes extensões de cerrado ainda estão praticamente intocadas


Outra área praticamente intacta visitada pelos pesquisadores foi a Lagoa do Veredão, na divisa entre Tocantins e Bahia, onde estão nascentes de afluentes dos rios Tocantins e São Francisco.

Uma das principais atividades desenvolvidas pelas comunidades da região do Jalapão, é a cestaria produzida com o capim dourado (Singhnantus sp), cuja capacidade de suporte está sendo avaliada por uma equipe do Departamento de Vida Silvestre do Ibama.

Coordenado pela bióloga Suelma Ribeiro Silva, o projeto não faz parte da Expedição ao Jalapão, mas deverá dar suporte para a implantação de um plano de manejo, que torne sustentável essa prática tradicional.


O artesanato, principalmente a cestaria, é a principal fonte de renda

O estudo do capim dourado conta com uma equipe de cinco pessoas, que esteve pela primeira vez no Jalapão no final de abril para fazer um diagnóstico da utilização da espécie pela comunidade. Foram levantadas as áreas de extração e está sendo realizado um trabalho de taxinomia para saber se a espécie (típica de campo úmido) é endêmica do Jalapão.

Cerca de 1.800 pessoas vivem hoje no coração do Jalapão, onde se encontram os municípios de Mateiros, Ponta Alta, Dianópolis e São Félix do Tocantins, rota dos pesquisadores na expedição do Ibama.

São comunidades tradicionais, muito isoladas, que vivem no limite da subsistência, num dos chamados "bolsões de pobreza". Nos últimos anos, estas comunidades esquecidas começaram a enxergar uma alternativa de crescimento no interesse - dos turistas e dos compradores de artesanato - por aquela região perdida, cheia de areia e extremamente bela, onde moram.


Cerca de 1.800 pessoas vivem do turismo e do artesanato


Várias famílias já tiram o sustento da cestaria produzida com o capim dourado. Em outras famílias, o pão vem da nova atividade de guias, que acompanham aventureiros e pesquisadores na descoberta dos tesouros ecológicos da região, por roteiros que precisam ser bem planejados e avaliados, também para evitar os excessos, que podem destruir as belezas naturais.

Quase 159 mil hectares já estão protegidos no Parque Estadual do Jalapão, decretado em janeiro deste ano, no município de Mateiros, onde estão as dunas. Em torno do parque, 461 mil hectares são Área de Proteção Ambiental estadual, desde julho de 2000.

A expedição, organizada pelo Ibama, deverá avaliar os recursos naturais e delimitar mais 3 ou 4 unidades de conservação, de forma a criar um sistema de proteção integrado.

Por outro lado, a presidente da Associação das Artesãs e Extrativistas do Povoado de Mumbuca, Noêmi Ribeiro, diz que os moradores estão aflitos com a criação do Parque Estadual do Jalapão, pois temem ser retirados do local, onde vivem há gerações.

Segundo Noêmi, as 86 famílias do povoado, no município de Mateiros, vivem do artesanato do capim dourado e do barro, com o qual fazem tijolos, pratos e panelas. Do buriti, confeccionam móveis diversos.

 

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