São Paulo, 11 de Julho de 2003 -
Pois esses são recursos da chamada biodiversidade, expressão
cada vez mais em voga utilizada para designar a profusão de
seres vivos que habitam o planeta, incluindo os humanos, de
onde derivam conhecimentos e riquezas que servirão para
produzir remédios, alimentos, cosméticos, combustíveis, etc.
Tudo isso somado valeria US$ 33 trilhões,
segundo a revista Nature. A parte que cabe ao Brasil
custaria, segundo o Ibama, em torno de R$ 4 trilhões, quase
quatro vezes o nosso Produto Interno Bruto (PIB), medido
pela metodologia econômica tradicional. Ufanamo-nos de ter
13% da água doce do planeta, 20% da diversidade biológica -
cerca de 2 milhões de espécies da fauna, flora e vida
microbiana.
Enquanto isso em Quioto, no Japão, um
certo Sr. Nagasawa...
A Asahi Foods, empresa japonesa do setor
de alimentos, conhece bem o doce sabor do cupuaçu, que
importa do Brasil para produzir extravagâncias gastronômicas
que encantam consumidores nipônicos, ávidos por reencontrar
o elo com a natureza que a tecnologia avançada esgarçou.
Perceberam que esses sabores provocantes
da Amazônia faziam sucesso também nos Estados Unidos, a
julgar pelas vendas crescentes a seu parceiro americano. O
arbusto nativo na floresta era mágico. Não produzia apenas
frutos, mas dinheiro vivo. Mas para colhê-lo seria preciso
garantir a primazia da descoberta e controlar os principais
mercados.
O esperto Sr. Nagasawa, da Asahi Foods,
parece ter encontrado a fórmula mágica ao conseguir
registrar o nome cupuaçu como uma marca criada por sua
empresa para várias classes de produtos no Japão, na União
Européia e nos Estados Unidos. Nos EUA criou até uma
subsidiária com o nome que açambarcou - a Cupuaçu
International.
A manobra foi possível porque não existe
legislação internacional adequada para assegurar a países e
comunidades detentoras de recursos e conhecimentos genéticos
e biológicos, a maioria das quais nações em desenvolvimento,
participação nos rendimentos da exploração dessas riquezas.
Dois regimes internacionais tratam de
questões relacionadas a essas patentes: na Organização
Mundial do Comércio (OMC), o Tratado sobre Direitos de
Propriedade Intelectual Relacionados ao Comércio
Internacional (TRIPS), de 1995, e, nas Nações Unidas, a
Convenção de Diversidade Biológica (CDB), subscrita pelos
participantes da Eco 92 realizada no Rio.
A CDB defende a soberania nacional sobre
os recursos biológicos e exige aprovação e participação das
comunidades locais para sua utilização e repartição de
benefícios. O TRIPS estabelece que recursos biológicos devem
estar sujeitos a direitos privados de propriedade
intelectual e não prevê a repartição de ganhos entre o
titular da patente e os provedores do material biológico.
O debate dessa questão tem sido
enriquecido com propostas como as da economista Amyra El
Khalili, presidente da ONG CTA, voltada para o estudo das
"commodities ambientais", expressão que cunhou para designar
os bens da natureza a serem negociados numa bolsa mundial de
mercadorias - a BECE, do nome em inglês Brazilian
Environmental Commodities Exchange.
Mas, enquanto a BECE não vem, registrada a
marca não poderiam pairar quaisquer dúvidas: cupuaçu e Asahi
Foods se confundiam. O produto indígena deveria afunilar
dinheiro para a multinacional japonesa. Era sentar e esperar
a safra.
Enquanto isso, em Rio Branco, Acre, na
sede da Doces Tropicais...
Era um momento importante para as doceiras
que, diligentemente, produziam os bombons recheados de creme
de cupuaçu e os enrolavam em papel celofane colorido,
organizando as caixas que seriam levadas por Michael
Schmidlehner, fundador da ONG Amazonlink, para importadores
na Alemanha.
A venda dos bombons poderia significar uma
janela de novas oportunidades para cerca de 150 produtores
familiares cooperados que plantam no sistema agroflorestal
harmonizando agricultura tradicional e exploração racional
dos recursos da floresta. O cupuaçu é a primeira fruta
regional para a qual se conseguiu desenvolver uma técnica de
plantio em escala comercial.
Nem bem Michael desembarcara em Frankfurt
e já recebia o alerta de um brasileiro que tentara vender
geléia de cupuaçu naquele país. Teria de pagar pedágio de 10
mil dólares para a Asahi Foods se quisesse vender ali
qualquer coisa com o nome da fruta. Desconcertado, o enviado
da Doces Tropicais juntou suas caixinhas de bombons e
retornou a Rio Branco.
Diante de uma platéia de agricultores e
extrativistas incrédulos, esforçou-se para explicar que o
cupuaçu já tinha dono e era um japonês. "Puxa! Não sabia que
já estavam roubando até nome!", exclamou, estupefato, um
modesto colhedor de frutos da beira do rio Madeira.
Na reunião falou-se na possibilidade de
uma ação internacional para recuperar o nome, mas poucos se
entusiasmaram. Era uma realidade muito distante para
camponeses de poucos recursos enfiados nos confins do Acre.
O jeito era conformar-se, como sempre acontecera, com a
venda dos frutos e deixar que o japonês carimbasse o nome
que quisesse no produto.
Enquanto isso, num escritório de
advocacia, em São Paulo...
A Backer & MacKenzie é uma formidável
empresa de advocacia com braços em todo o mundo que atua no
Brasil por meio de sua associada Trench, Rossi e Watanabe. O
telefone toca, numa tarde de meados de março último. Era um
representante do Instituto Brasileiro de Direito do Comércio
Internacional, da Tecnologia da Informação e do
Desenvolvimento (CIITED), entidade formada por professores
da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, advogados
especializados em comércio internacional e estudantes.
Souberam da apropriação do nome cupuaçu e achavam que alguma
coisa poderia ser feita, mas seria necessário o apoio de um
escritório de advocacia com articulação internacional.
O CIITED estava alinhado com o Grupo de
Trabalho Amazônico (GTA), organização fundada em 1992 na
esteira da Conferência do Rio, que coordena o trabalho de
outras 500 entidades de produtores familiares que se
espalham pela região. Suas antenas sensíveis captam e
retransmitem informações que correm o mundo por uma poderosa
e articulada rede.
Juntos, GTA, Amazonlink, CIITED e um novo
parceiro, a Associação dos Produtores da Amazônia (APA),
formaram pouco mais do que um incrível exército de
Brancaleone para iniciar a guerra pela reconquista do
cupuaçu.
O prazo era curtíssimo - menos de uma
semana - para uma ação que deveria ser redigida em inglês,
traduzida para o japonês e dar entrada no equivalente ao
Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), que
registra marcas e patentes, em Tóquio. Mas o desafio
oferecia atrativos.
Trata-se do primeiro caso no Brasil de
ação para cancelamento de registro internacional de marcas
que, se bem-sucedido, poderá abrir oportunidades apetitosas
numa área que movimenta estimados US$ 500 bilhões em
negócios ligados a biodiversidade envolvendo coisas
concretas como medicamentos, alimentos, cosméticos, e
intangíveis como conhecimento, tradição e cultura de povos
nativos.
A tarefa foi destinada à jovem e aplicada
advogada Adriana Vicentin, especialista em marcas e
patentes. A lei japonesa permitia a contestação do registro
do nome cupuaçu num prazo de cinco anos. A coincidência é
que o prazo estava vencendo justamente naquela semana.
Correndo contra o fuso horário, a advogada
brasileira passou a coordenar frenéticas ações que varavam
as madrugadas japonesas. Ao apagar das luzes do prazo final,
conseguiu protocolar um documento de 30 páginas contestando
o registro da marca.
O caso do cupuaçu acabou revelando a ponta
de um gigantesco iceberg. Nas pesquisas para o processo
puderam ser identificados mais de 50 outros registros de
marcas e patentes de bens da natureza brasileira em todo o
mundo.
Além do cupuaçu, nomes como copaíba,
andiroba, biribiri, açaí e ayahuasca foram registrados em
vários países pela cavalaria ligeira da Asahi Foods e por
outras empresas internacionais, dentre as quais grandes
laboratórios farmacêuticos.
Algumas espécies retiradas da floresta
amazônica já estão até mesmo sendo replantadas em outros
países, como fizeram no passado com a seringueira.
É o caso da ayahuasca, da qual se extrai o
chá alucinógeno conhecido no Acre como mariri, popularizado
pelas seitas Santo Daime e União dos Vegetais. A erva brota
com vigor em plantações nos Estados Unidos e no Havaí como
Caapi vine e é vendida por uma certa Cielo Herbal por preços
que chegam a quase US$ 1 mil por um feixe de gravetos
enviado pelo correio para quem quiser comprar em qualquer
parte do mundo.
(Gazeta Mercantil/Fim de Semana8)(Antonio
Alberto Prado)